Problemas bucais e dentários em gatos Picture

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[Traduzido por Roberta Martire, Chatterie des Mûres Sauvages]

Por Lies Klösters, 2006

Humanos e animais podem desenvolver muitos tipos de problemas dentários. Os problemas que ocorrem normalmente em humanos (cárie causada por excesso de açúcar) não ocorrem frequentemente em animais porque a maioria deles ingere bem menos açúcar do que humanos. Mas ainda assim seu animal de estimação pode desenvolver problemas dentários. Um único check-up preliminar dirá se o animal tem um bom alinhamento dos dentes, se todos os dentes estão presentes, e etc. Check-ups regulares em animais mais velhos podem prevenir tártáro (cálculo) e a formação de placas: essas podem ser removidas em estágio ainda precoce antes de causarem problemas. Mas ainda outras doenças como a gengivite podem ocorrer em qualquer estágio da vida. Em poucas palavras: um bom check-up dentário é muito importante para detectar possíveis problemas à tempo.

Tipos de dentes

Todos os animais tem dentes e estes são perfeitamente adaptados à comida que eles comem e ao seu estilo de vida. Algumas espécies de animais tem dentes em forma similar aos dos tubarões, crocodilos e outros com dentes de baleia (veja figura 1), eles são chamados dentes homodontes. A maioria dos mamíferos são heterodontes e eles tem muitos tipos de dentes: incisivos, caninos, premolares e molares (veja figura 2, 3 e 4). Alguns animais tem dentes que são bem específicos da sua espécie (como dentes de cobras venenosas, ou elefantes, morsas e narvais), outros tem dentes que são também encontrados em grupos maiores de animais. Mamíferos podem ser aproximadamente divididos em 3 grupos, de acordo com cada diferente dieta alimentar, que se chamam:

  • herbívoros (que comem plantas) com molares planos para trituração (figura 2)
  • carnívoros (que comem carne) com premolares pontiagudos e molares (figura 3)
  • onívoros (que comem tanto plantas quanto carne) com dentes com formato entre os dos carnívoros e dos herbívoros (figura 4)

figura 1:
dentes de uma orca
figura 2:
dentes de um roedor
figura 3:
dentes de um gato
figura 4:
dentes de um gibão

Dentes felinos

O gato é carnívoro. Carnívoros tem dentes afiados e dilaceradores; dentes que foram desenhados para capturar, segurar e dilacerar uma presa e se necessário, morder os ossos. Muitos deles não conseguem sequer mastigar a comida: o queixo não se move da direita para a esquerda, nem de baixo para cima.

Gatos e cachorros nascem sem dentes, exatamente como humanos; os primeiros dentes aparecem - dentes de leite - muitos dias depois do nascimento e eles trocam para a dentição adulta (definitiva) após muitos meses. Os dentes dos gatos e cachorros não continuam crescendo como os dentes de alguns roedores, cavalos e elefantes.

A composição dentária pode ser expressada através de uma fórmula. A fórmula dentária consiste em duas linhas uma abaixo da outra, que vão do osso maxilar superior ao inferior. Esta fórmula descreve metade do maxilar, desde que o lado esquerdo do maxilar seja idêntico ao direito. (e desde que todos os dentes ainda estejam presentes.)
As abreviações na fórmula dentária significam: I = incisivo, C = canino, P = premolar, M = molar. Essas abreviações em letras minúsculas significam os dentes de leite, as em letras maiúsculas significam os dentes definitivos. A fórmula dentária do gato é:

Dente de leite: Dente permanente:

Entre 11 e 15 dias de vida, os dentes dos filhotes rompem e entre 37 e 60 dias de vida a dentição de leite se completa. Os dentes de leite são substituídos pelos permanentes entre a semana 13 e 24.

A substituição dos dentes de leite acontece na seguinte ordem:
- I 13 - 16 semanas
- C 20 - 24 semanas
- P 20 - 24 semanas
- M 18 - 24 semanas
Durante o período de rompimento dos dentes é possível estimar a idade do gato no caso desta ser ainda desconhecida.*

Oclusão dentária

O alinhamento correto dos dentes é chamado de "mordida funcional". Quando os dentes não estão corretamente encaixados, falamos em "mal oclusão" e o alinhamento é chamado de, por exemplo, trespasse horizontal (overbite ou overjet), prognatismo (underbite), level bite ou mordida cruzada.

  • Mordida Funcional (scissors bite): o maxilar inferior deve ser menor do que a superior. O set de dentes ideal consiste no encaixe dos incisivos do maxilar superior nos do inferior de forma perfeita, um no outro, e molares que se encaixam igualmente um no outro.
  • Overbite: os incisivos do maxilar inferior se encaixam atrás dos incisivos do maxilar superior.
  • Underbite (Prognatismo): os incisivos do maxilar inferior se localizam na frente dos incisivos do maxilar superior.
  • Level bite (mordida de topo à topo): os incisivos do maxilar inferior se encaixam um em cima do outro, ao invés de corretamente encaixados um no outro.
  • Cross bite (mordida cruzada): ou 'wry bite' ou 'wry mouth', significa que metade do maxilar direita e esquerda não tem o mesmo comprimento.

A composição dentária dos cães faz parte de todos os standards de raça. Os standards de raça dos gatos não descrevem como os dentes devem ser. Algumas vezes encontramos nos standards apenas que a overbite não pode ter o espaçamento entre os maxilares inferior e superior maior do que 1 e 2 mm, enquanto em outros standards é dito que tanto a overbite quanto underbite são desclassificatórias.

Durante os shows caninos os juízes checam os dentes de todos os cães, e um set dentário ruim é imediatamente desqualificatório. Os juízes de shows felinos apenas olham os dentes se eles puderem ver por fora que existe algo arrado. Em shows da FIFe é permitido aos juízes olharem a boca de cada gato (mas isso não significa que todo gato tem sua dentição verificada nesse tipo de show), outras associações felinas nem mesmo permitem que a boca do gato seja examinada sem a permissão prévia do proprietário. Essa regra foi estabelecida por algumas associações felinas para evitar o risco de contaminação. Claro que eles tem um importante motivo: a boca do gato é de fato cheia de bactérias. (Esta é também a razão pela qual a mordida do gato leva mais frequentemente à inflamação do que a mordida de um cão.) Mas a falta de uma verificação standard como parte do protocolo de julgamento também significa que existe pouco ou nenhum conhecimento profissional sobre o alinhamento dos dentes e maxilares.
Devemos notar que gatos não necessariamente cooperam durante uma inspeção bucal, ao contrário de cães que podem ser facilmentes treinados para isso. Ainda assim, quando a boca de um gato é verificada durante um show e algo não parece estar correto, isso deveria levar à desqualificação, da mesma forma que para cães.

Cães com foçinhos muito estreitos perdem algumas vezes um ou mais incisivos. Em raças com foçinho muito curto, algumas vezes os molares não estão presentes. As raças com foçinhos de tamanho médio à longo parecem ter uma melhor scissor bite (mordida funcional), mas a mordida level bite é também permitida. Muitos underbites podem ser vistos em raças de cães de foçinho muito curto, e isto consta igualmente no standard dessas raças. Todos os tipos de problemas podem ser causados por um espaço muito grande entre os maxilares (numa under- ou overbite) porque o dentes não se encaixam corretamente. Por exemplo quando durante o parto a cadela não consegue desvensilhar os filhotes da membrana aminiótica sozinha é porque ela não consegue segurar essa membrana entre os dentes para rompê-la em seguida. Quando uma cadela com grande under- ou overbite têm seus filhotes sem ajuda humana, na hora de tirar os filhotes da membrana, os filhotes sufocam apenas alguns minutos após nascerem.

Muitas raças de gatos não são fisicamente tão distintas e diversas quanto as raças de cães, especialmente as diferenças de porte (tamanho do corpo) são bem pequenas. Mas o formato da cabeça é diferente particularmente nas raças que foram reproduzidas visando o tipo extremo e a aparência durante um longo período. Foçinhos longos podem gerar overbites, mas essas overbites não são tão importantes para causarem problemas sérios. Conforme descrito acima, foçinhos curtos geram problemas regularmente. É por isso que criadores de gatos que trabalham raças de foçinho curto devem ficar atentos para que os gatos não desenvolvam os mesmos problemas existentes nas raças de cães. Alguns gatos (incluindo gatos de foçinho longo e médio) tem problemas de maxilares com diferente comprimento, caninos mal posicionados ou mordida cruzada. Atravéz de uma boa e profunda seleção em animais reprodutores, criadores podem ter certeza de que tais problemas irão desaparecer na maior parte da população e serão apenas excessões.

Placa e tártáro

Mal hálito e baba podem ser os primeiros sinais de que algo está errado com a boca do seu animal, e mais tarde isso pode levar à perda de apetite e anorexia (especialmente se a comida é ração) pois a gengiva dói. Quando a gengiva começa a sangrar, o animal começa a coçar a própria boca com as patas e alguns gatos páram de se lamber. Gentilmente levante os lábios do seu animal e verifique a boca à procura de tártaro, placa, gengiva inflamada e perda de dentes ou dentes quebrados.

Muitos problemas começam com a placa. A placa se instala no encaixe do dente com a gengiva, e contém muitas bactérias. Com o tempo a placa endurece e fica mais escura cobrindo o dente: o tártaro. O tártaro pode causar inúmeros problemas como inflamação e sangramento da gengiva, amolecimento dos dentes, perda de dentes seja porque caem, seja porque tem que ser removidos. Se o tártaro fica no dente por um longo período a inflamação na gengiva pode virar gengivite (inchaço, inflamação ou sangframento na gengiva). A bactéria do tártaro pode ir parar na circulação sanguínea do gato e afetar sua saúde causando inflamações nos rins, na válvula do coração e nos discos da espinha.

scaler

O tártaro pode ser removido com a ajuda de uma pinça (disponível na Internet ou no consultório do seu veterinário ou dentista). Você pode fazer isso sozinho ou deixar seu veterinário fazer. Para cães é útil dar ossos: a ação de mastigar os ossos limpa os dentes. Alguns gatos também gostam de mastigar ossos, mas nem todos os gatos podem fazer isso. Nunca dê osso cozido, dê sempre osso cru para seu cão ou seu gato: ossos cozidos são mais macios e se esfarelam facilmente. Os ossos não devem ser muito pequenos para que o gato ou cão não corra o risco de engolir os ossos inteiros ou se engasgarem.

Algumas marcas de ração animal tem pesquisado sobre esse problema e ajustaram suas receitas de acordo. Isso resultou em diferentes tipos de ração seca de tamanho grande e muito duras para serem totalmente mastigadas pelos gatos. Essas rações deveriam remover as placas e tártaros dos dentes dos animais enquanto o animal morde e mastiga os grãos de ração. Isso ajuda um pouco, mas não é suficiente para manter os dentes dos gatos limpos. (se você alimenta o seu gato com ração, tenha certeza de que deixar sempre água disponível e à vontade.)
Escovar os dentes do seu gato dá ainda resultados melhores na eliminação de placas e evita o aparecimento de tártaro, mesmo que isso não seja algo fácil de fazer. O gato tem de fato que se acostumar à isso, mas não é impossível introduzir essa nova rotina. Especialmente se eles receberem depois uma pequena recompensa como um pouco da pasta de dentes desenvolvida para gatos (não use pasta de dentes desenvolvidas para humanos!).

Gingivite, periodontite e estomatite

Se a gengiva está vermelha, inchada, sensível ou sangrando facilmente, isso é chamado de gengivite. Isso pode ocorrer em gatos de qualquer idade. Gengivite pode ser causada por tártaro mas também pode ocorrer espontâneamente mesmo quando o dente está sendo bem tratado. Existem muitas teorias sobre as causas espontâneas da gengivite. As opiniões com relação aos tratamentos são bem diversas.

O primeiro sinal de gengivite é uma linha vermelha bem fina localizada na parte superior da gengiva, acompanhando o dente. Neste estágio o processo ainda pode ser interrompido através de limpeza profunda - especialmente se a causa for placa ou tártaro. A inflamação na gengiva vai desaparecer sem demais danos para os dentes.
Quando a gengivite progride ela pode também afetar as raízes dos dentes embaixo da gengiva, e esta condição é chamada periodontite. Nesse estágio a gengiva vai começar a inchar rapidamente e o dente pode não conseguir ser salvo (ou eles caem sozinhos ou tem que ser removidos). A periodontite não é curável como a gengivite. Logo é muito importante manter a situação sob controle e não deixar que ela avance.

Como a periodontite começa.
1=gengiva , 2=raiz, 3=união, 4=osso maxilar, 5=coroa, 6=placa, 7=tártaro.

A = Princípio de formação da placa. A gengiva começa a recuar um pouco.
B = Embaixo da gengiva o tártaro começa a crecer. A gengiva fica irritada e inchada. Os dentes ficam menos firmes no maxilar.
C = A gengiva tem uma inflamação severa e está muito inchada. Os dentes estão quase soltos do maxilar e irão em breve cair.

Algumas vezes não só a parte superior da gengiva em volta do dente que fica inflamada, mas também a membrana mucosa em toda a boca. Isso é chamado estomatite. Gatos com essa doença normalmente babam muito e comem pouco ou se recusam a comer totalmente por causa da dor na gengiva.

A causa da gengivite, periodontite e estomatite ainda não é evidente. Existem muitas teorias sobre isso, como por exemplo uma reação do sistema imunológico à uma bactéria na boca ou uma reação auto imune. Em alguns gatos, a doença começa quando eles se encontram num estágio vulnerável, como uma fêmea que acabou de ter filhos, ou animais já doentes ou que acabaram de ser vacinados. Existem ainda indícios de que essa possa ser uma condição hereditária ou que fatores hereditários estejam envolvidos, especialmente quando pais ou avós do gato doente apresentam uma condição similar. Infelizmente nenhuma pesquisa capaz de dizer exatamente a origem do problema vem sendo feita.

A forma hereditária da doença parece ser a mais complicada de tratar, em muitos casos o dente tem que ser removido porque a inflamação não pode ser contida. Assim que o dente afetado é removido e a placa e o tártaro também, o gato não sofrerá mais da inflamação.
Para gatos com a forma não hereditária da doença, antibióticos ou escovação dos dentes podem ser uma solução, mas ainda assim pode ser impossível evitar a remoção do dente. Em todos os casos, é bom ter atenção na qualidade de vida do seu gato, e ajustar o tratamento em função desta (através de consulta veterinária, é claro!).

Lesão de Reabsorção Osteoclástica Felina (Feline odontoclastic resorptive lesions - FORL) ou LROF

Esta foto mostra um canino com uma mancha pequena, pouco visível na membrana mucosa, localizada na ponta da gengiva.

Este raio X mostra que a pequena mancha na membrana mucosa é apenas a ponta do iceberg: a raíz do canino está quase totalmente dissolvida. (siga as setas).
Photos do Dr. Markus Eickhoff **.

Esta doença afeta majoritariamente gatos acima de quatro anos de idade. Outros nomes para esta doença são: cárie dentária, reabsorção interna ou externa da raíz, erosão da linha cervical ou lesão.

Dentes afetados desenvolvem lesões na raíz do dente. Isso é extremamente doloroso. Além disso existem outros sinais para essa doença: baba, sangramento, e sinais de dor quando a boca é tocada. Ainda, o gato pode mostrar fome, correr para a comida e sair sem comer nada. Dentes afetados quase sempre tem que ser removidos, pois não há cura pra essa doença. FORL é uma doença progressiva, o que significa que mesmo que todo o dente afetado seja removido, os dentes restantes devem desenvolver os mesmos sintomas.

FORL não é algo que é sempre diagnoticado à partir dos primeiros sinais ou numa verificação rápida, pois um gato com dentes perfeitos pode ainda assim ter FORL. Tártaro e placa não causam FORL. Somente um raio X pode mostrar o que está acontecendo abaixo da superfície da gengiva.


IMPORTANTE: Se o seu gato tem problemas bucais-dentais sérios, por favor leve-o ao veterinário especialista em odontologia!

Literatura de referência:

* Tandheelkunde bij hond en kat, Dr. Leen Verhaert, Dipl., E.V.D.C.
** FORL – Die neue Geißel der Katze, Dr. Markus Eickhoff.