OMERTA: O Código de silêncio dos Criadores Picture

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[Traduzido por Simone Alonso, Lusitania Cattery]

De Sierra Milton, Stormsong GSPs

Mafia e Criadores

O que há em comum entre os criadores de hoje em dia e a Máfia? Podem achar que seja uma pergunta estranha. Têm, infelizmente, muito em comum. A resposta está simplesmente no que diz Padgett, uma geneticista famosa, quando se refere ao "Código de Silêncio" em relação aos criadores e, talvez, mas conhecido como "omerta" no mundo da "Cosa Nostra". Ambos são mortalmente silenciosos. É perfeitamente compreensível o porquê do silêncio no mundo da criminalidade, mais quais poderão ser as razões para um criador pertencer ao "omerta"?

O motivo mais comum para a não partilha de informações genéticas, é o medo de vir a ser o objecto de "caça as bruxas". Começa com o facto de ser proprietário e o ser humano precisa de sentir que o que possui é o melhor. Lembram-se da mentalidade "Nunca querer ficar para trás"? Toda a gente quer o melhor e ser reconhecido como sendo o melhor. Admitir que aquilo que temos possa ter algum defeito é o passo mais difícil para a maioria de nós. A culpa também recai sobre o enorme investimento financeiro e emocional dos criadores relativamente aos seus cães. Descobrir que algum macho ou fêmea nos quais tanto se investiu, possa apresentar algum defeito, traz o medo e a negação do próprio criador em poder sequer considerar que os seus cães possam ser portadores de doenças genéticas. O ego aliado ao medo, de ser rotulado de "criador de pouca qualidade", é a últimas razão para os criadores manterem este prejudicial código do silêncio.

Genes Defeituosos

Mais perigoso que o Código do Silêncio, é a recusa em aceitar que possam existir genes defeituosos dentro de uma criação e presentes em várias gerações, genes que são não visíveis em muitas linhagens mas que acabam por aparecer. Será possível que cães aparentemente saudáveis possam actualmente propagar um perigoso gene, as vezes letal, através de uma comunidade utilizada para a criação, até ao dia em que dois exemplares saudáveis, mas portadores de um gene defeituoso, juntos iniciam o processo do aparecimento do primeiro descendente visivelmente afectado? Claro que isto é possível, e os geneticistas dizem-nos vezes sem conta.

Simplesmente, os criadores não conseguem ver os genes defeituosos e o que não se vê não existe. No entanto, utilizando esta lógica, todos os cães não testados devem ser tão saudáveis por dentro como perfeitos por fora. Se esta lógica pudesse ser verdadeira! Infelizmente, dá-se mais valor a estrutura e a beleza exterior simplesmente por ser um elemento facilmente visível, conhecido e conseguido. Da mesma forma, a beleza exterior não necessita de "inúteis" investimentos financeiros. Assim não é necessário pagar um raio X ou testes sanguíneos ou especialistas para avaliaram se o cão está dentro do padrão da raça a nível físico.

O real perigo, se reflectirmos, não provém dos cães testados, mas sim dos criadores que tal como a avestruz mantém a cabeça debaixo da areia e recusam acreditar que os seus cães possam ser menos "perfeitos". Podemos começar uma orientação pelo que foi dito, mas continuar em segredo é uma ameaça para o futuro. Mas aqui torna-se evidente o omerta ou seja "Código do Silêncio". Não só estes criadores acreditam que os seus cães não podem ser portadores de doenças genéticas, defeitos físicos ou problemas comportamentais, como também não acreditam que qualquer cão escolhido por eles no seu programa de criação possa através de uma cruza tornar-se ele próprio portador. Afinal, eles só "criam o melhor", e, claro, que o melhor só pode ser perfeito.

Sucesso nas Exposições

Agora surge o verdadeiro acto criminal. Estes criadores são por norma criadores de sucesso nas exposições; os seus cães são supostamente os melhores - pois de facto, são detentores de prémios, lugares e títulos que provam o valor dos seus cães. Devido ao seu sucesso nas exposições, são vistos como criadores de relevo, pessoas que os novos criadores acreditam ser possuidores de conhecimento e informações. E, a informação que estes novos criadores recebem é que não existem problemas genéticos, que não é necessário "gastar muito dinheiro em testes, que os cães são saudáveis". Ainda mais desastroso para o futuro da criação é que esta atitude leva o melhor. O novo criador vê o sucesso desse criador e compra-lhes os cães (acreditando que alguns, se houver, tenha o mais simples teste para defeitos físicos, fraca saúde ou doenças genéticas). O novo criador tem então que proteger um investimento financeiro e emocional que o vai levar a ter a mesma atitude, com resultados prejudiciais. Em breve, esses criadores tornam-se os "poderosos" dentro da raça (muitas vezes são juízes, pessoas escolhidas para debates sobre a raça em seminários, criadores que estabelecem os preços dos cachorros e dos machos reprodutores, criadores de sucesso nas exposições), eles utilizam esse "poder" para afirmar que não é ético falar sobre qualquer defeitos, seja na saúde ou no carácter, sobre a ascendência dos seus machos, fêmeas ou descendência dos mesmos. Muitas vezes ouve-se "não posso dizer nada se quero ganhar" ou "ali existem 3 linhagens com epilepsia (ou coração ou taras oculares ou qualquer outros problema de saúde), mas não convém que saibas isso." Pelo contrário, precisamos de saber, senão como podemos fazer a escolha certa para a uma melhor criação, que não seja somente direccionada na beleza física, mas também nas doenças genéticas que supostamente temos que erradicar?

Mas então o que é feito dos criadores que falam abertamente dos defeitos encontrados nos seus cães? Infelizmente, ficam logo rotulados de "fracos criadores" com cães "defeituosos". São evitados e falados entre murmúrios e escárnio. O facto é que, estes criadores lutam na partilha sincera de conhecimentos e testam de modo científico os seus cães, e isso torna-os objecto de caça as bruxas por aqueles que vendem ao desbarato (sem moral), desinteressados, egoístas, despreocupados com o futuro para testar os seus cães, e sobretudo que não têm coragem para falar abertamente dos seus problemas. Em vez de aplaudir os criadores que escolheram a partilha de informações, estes últimos tornam-se alvo de escárnio e perseguidos. Como resultado, e porque a nossa natureza humana nos leva a querer fazer parte de um grupo em vez de ficar de parte, os criadores começam a fazer o que se faz de melhor - guardam o silêncio e mentem ou recusam admitir o que eles próprios sabem.

"Criadores de Má Qualidade"

Cada vez mais, novos criadores associam-se a uma raça e criadores inexperientes e expositores e, todos juntam-se ao grupo de vencedores em exposições, tornando-se donos e praticando a arte de criar, voltam-se para os criadores de sucesso, tentando igualar com cães de qualidade superior. Os criadores estão, no entanto, determinados que nada de mal seja revelado sobre os seus cães, estabelecendo nas suas mentes um futuro de perfeição nas suas criações e investindo mais financeiramente e emocionalmente na perpetuação desta teoria. Ganhar nas exposições não tem nada a ver com doenças genéticas. De facto, um grande número de cães vencedores são portadores de doenças genéticas e, em alguns, até são conhecidos por terem doenças genéticas. Enquanto que a doença genética por si própria, dependendo do tipo e grau, não deve ser excluída do património genético do cão, é primordial que as pessoas tenham cuidado com as doenças genéticas inerentes a raça para poder desenvolver uma criação inteligente. Pelo menos, o cão que integra um programa de criação deve ser testado e os seus ascendentes analisados, para evitar a possibilidade de afectação a mais cães e do mesmo modo evitar a criação de cães portadores de doenças. Por ora, porque o vencedor não quer ser rotulado de "fraco criador" e perder a fama de ser o melhor (como também a perda financeira que seria por não poder continuar a vender os cachorros a altos preços), o "Código do Silêncio" é utilizado com mais firmeza.

No intuito de serem aceites, os novos criadores, evitam falar dos machos e das fêmeas que produzem com pouca qualidade, seja a nível estrutural, de saúde ou com problemas comportamentais. Da mesma forma, eles também têm agora um investimento financeiro e emocional além do desejo de serem aceites no "clube dos vencedores". Eles até se podem aperceber de certas tendências de uma ou mais das suas linhagens que integram os seus pedigrees, mas recusam a partilha destas tendências e guardam segredo, com medo de serem rotulados.

Muitas vezes, os criadores, não querendo revelar que têm alguns problemas, tentam diluir estas possibilidades, rareando o mal através de cruzamentos com linhagens totalmente diferentes. O Dr. Jerold Bell, geneticista famoso, diz o seguinte sobre este método: "Repetidos cruzamentos com outras linhagens no sentido de diluir genes recessivos prejudiciais, não é o método correcto para o controle da doença. Genes recessivos não podem ser diluídos; estão ou não presentes. O cruzamento com outras linhagens multiplica e posteriormente espalha o gene defeituoso no património genético. Se um cão é um conhecido portador ou têm grandes possibilidades através da análise do pedigree, pode ser retirado da criação, e substituído por um ou dois dos seus descendentes de qualidade. Estes descendentes devem ser utilizados na criação e substituídos da mesma forma, com a esperança de ter perdido o gene defeituoso".

Medo

Infelizmente, a recusa em admitir ou fazer testes para despistes de doenças genéticos, não ajuda no seu combate ao desaparecimento. O que não conseguimos ver tem um grande impacto na criação e a com a continuação de portadores de genes defeituosos, isto só leva a afirmação do defeito na raça. Os criadores que levam muito a sério a criação ao nível da saúde e tomam todas as precauções a nível científico, para assegurar uma saúde genética, são evitados em vez de serem aplaudidos pela sua paixão; os esforços feitos são minimizados e muitas vezes ridicularizados como "desnecessários" ou "extremistas". O resultado é, que estes criadores trabalham sozinhos e, fora dos seus clubes, e seus esforços acabam por terem pouco impacto na raça em geral.

O omerta só pode ser quebrado pelas pessoas com coragem, convicção e paixão para assegurar que a raça no seu todo possa tornar-se mais forte e mais saudável. Em vez de uma caça as bruxas para aqueles que aceitam lidar com os problemas, deveriam ser aplaudidos por terem a coragem e determinação em falar dos problemas e serem apoiados por todos os clubes da raça em cada país. Os prémios, em vez de serem dados aos melhores cães de exposições, deveriam ser dados aos criadores que mais trabalham em prol da raça. A beleza não melhora a raça, a saúde genética e a possibilidade de uma vida sem doenças, ultrapassam de longe a beleza, e não são difíceis de atingir.

O Custo Financeiro

Os custos genéticos não são assim tão importantes, quando comparados ao impacto que a sua recusa possa vir a ter. Pergunte a um criador bem informado, que tenha um exemplar com problemas de coração, doença sanguínea, taras oculares ou displasia da anca, se ele não culpabiliza os criadores aos quais ele comprou estes exemplares, por eles não terem tomado mais providências e investido mais a nível financeiro no sentido de evitar estas situações, e verá a resposta. Em Inglaterra, é possível fazer o teste por um especialista para, a displasia da anca, joelho, taras oculares, coração, doenças sanguíneas, e falta de imunidade por mais ou menos 295.00 libras (muito menos nos Estados Unidos), menos que o custo de um cachorro ou aluguer de um macho reprodutor. É possível fazer menos testes mas a que preço? Será que a raça deverá sofrer no futuro de um problema de coração para poupar agora 7,50 libras num teste com estetoscópio (levado a cabo em clínicas patrocinadas por criadores, neste caso da raça Boxer) que não era considerado importante na altura. Será que a raça não deixará de sofrer a cegueira devido ao custo de 16,00 libras para o exame (numa das varias clínicas patrocinadas para o efeito com ou sem custo algum quando feito nos "Cruft dog Shows" (exposições caninas britânicas) levadas a cabo anualmente). Será que os descendentes irão sofrer com dores devido a displasia da anca ou cotovelo, porque os seus progenitores tiveram bons andamentos nos ringues das exposições, e a olho nu não foi possível diagnosticar um problema de displasia? (Os raios X necessários para os testes de despiste de displasia da anca e do cotovelo, são os mais caros, com um custo aproximado de 110 libras para a anca a umas adicionais 80 libras para os cotovelos quando feito em conjunto com a anca; infelizmente são necessários 6 raios X diferentes para avaliar o cotovelo e o custo é o reflexo destas necessidades). Os testes da doença de Von Willebrand's (vWD) e a tiróide (imunidade do aparelho) podem ser feitos de maneira mais barata através de um teste sanguíneo com um custo que pode variar desde 30 até 50 libras cada. Uma vez detentores destes testes, não significa que não poderá aparecer algum problema nos futuros descendentes, mas com certeza será de forma reduzida ou nula e parece ser a melhor forma de começar.

Se o criador não tiver atestados veterinários ou relatórios que possam provar que os testes foram efectuados, o cliente comprará por sua própria conta e risco. Os criadores podem afirmar que os seus cães nunca coxearam ou que não há necessidade em fazer testes, que a criação é saudável. Alguns dizem, até afirmam, que os seus veterinários disseram que os testes genéticos não eram necessários. Opiniões essas, de irresponsáveis. Mais uma vez, os genes não são visíveis e os portadores dos mesmos podem aparentar saudáveis. Só com os testes poderemos saber realmente se os nossos cães estão afectados ou não, e então, juntamente com uma honesta avaliação do pedigree no qual os ascendentes também tenham sido testados, será possível obter um relatório mais conciso.

Quebrar o Silêncio

Que podemos nós fazer para quebrar este mortífero código do silêncio? A maioria, senão todos, os clubes de raça, possui um código ético que pede aos membros para criar cães saudáveis. Um dos lugares onde podemos começar é nos clubes. Em vez de instituições sociais ou de clubes de "amiguinhos", estas associações de raça deviam estar mais interessadas em proteger o futuro da raça obrigando a uma entregue dos atestados genéticos antes de dar início á criação. Bem mais sério do que iniciar a criação com os cães aos 16 meses, é a prática de criar após ter efectuados todos os testes genéticos inerentes a raça. No entanto, na maioria dos clubes, os criadores considerados como de "pouca qualidade", são identificados pela idade do cão com a qual iniciam a criação ou a frequência com a qual criam, em vez de considerarem o critério mais importante que é a saúde. Só existe a ênfase de ganhar - quantos clubes escolhem "o criador do ano" baseados no número de descendentes vencedores? Será que estes clubes também pedem ao criador que exiba as provas que tudo fez para assegurar um bom futuro para a raça.

Podemos quebrar o silêncio dando ênfase aos que têm a coragem e a determinação para falar dos problemas, partilhar sucessos e conhecimento em vez de bani-los. O omerta falhará se cada comprador e cada criador que utiliza machos reprodutores, pedirem as provas dos testes genéticos. O Código do Silêncio falha quando percebemos que não chega criar cães campeões ou ter um preço elevado dos cachorros, ou ter um macho reprodutor utilizado, cinquenta, sessenta, centenas de vezes; temos que voltar ao amor que nos lançou na criação da nossa raça e trabalhar apaixonadamente e com determinação para um futuro no qual os genes defeituosos serão reduzidos ano após ano.

Se conhece algum criador que faça criação sem testes, pergunte-se a si mesmo porquê - será falta de coragem em talvez ter que acabar com a criação de alguns dos seus exemplares? Será por causa da despesa financeira? Será porque eles não acreditam que os seus cães possam ser menos que perfeitos? Será que é por terem medo de serem rotulados de "fracos criadores" ao descobrirem que existem alguns problemas que precisam de ser resolvidos? Será que é por acharem que é mais difícil criar exemplares saudáveis e bonitos? Ou será que é por terem perdido a paixão de criar conforme o aumento do sucesso? Ou, da mais triste maneira, por simplesmente não se importarem sobre aquilo que não podem de facto ver?

Melhor Futuro

É um trabalho duro e exige muita coragem para desenvolver um programa de criação baseado em métodos científicos e testes genéticos, mas a esperança de um futuro melhor devia-nos levar a esta obrigação. A chave está na capacidade de trabalhar em grupo sem medo dos cochichos ou silêncios. O omerta, o Código do Silêncio, pode ser quebrado se houver mais criadores com vontade de mudar as coisas e acabar com esta inactividade.


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